PROFESSOR BETÃO, A FIGURA.
Como já deixei claro na introdução, os nomes dos colegas
e alunos seriam preservados. Sendo assim, Betão não é o nome real do professor
de Educação Física em questão. No entanto, quem o conheceu saberá exatamente de
quem estou falando e espero que vejam essa narrativa como uma homenagem a uma
figura excêntrica e lendária de nossa cidade, que contribuiu tanto com a
educação.
Professor Betão era uma figura, como já havia mencionado,
muito excêntrica que conheci nos meados dos anos 80, quando ainda era aluna.
Como era formado na época do militarismo, ainda guardava muitos resquícios
dessa época: seriedade na face, voz de comando, exigência na disciplina e no
cumprimento das atividades físicas, além do treino impecável dos times para os
jogos regionais. Era muito respeitado e amado pelos alunos, apesar do seu
jeitão.
Na década de 90, voltei a encontrar o professor Betão,
agora como colega de trabalho. Ele continuava do mesmo jeito, porém, percebi
que as mudanças na educação e na clientela das escolas públicas fazia com que
Betão se frustrasse muito com a falta de interesse e respeito dos alunos. Além
da incompreensão da sua excentricidade.
Gostaria de mencionar que Betão, apesar de já ter passado
dos 50 anos, sempre manteve seu físico, alto, magro, porém atlético. No
entanto, sempre manteve, também, seu modo de se vestir: boné, apito, camisa
polo justa e uma calça de helanca, daquelas antigas, marrons com listras
laterais, que tem alça no pé e cadarço na cintura.
Pelo fato de o professor ser magro e alto com pernas
longas, e ainda usar essa calça, que ficava bem esticada em seu corpo, devido
às alças e ao cadarço, quando ainda não agravava a “estica” da calça usando
suspensório, os alunos começaram a dizer que aquele professor usava uma calça “centro-peito”,
remetendo ao modelo saint tropez, dos
anos 80, cuja cintura batia quase no peito.
Os alunos ainda observaram que ele era muito parecido com
um personagem de filme chamado Crocodilo
Dundee e eu pensava: “Meu Deus! Como podem?”.
E para arrematar este episódio, falo de um aluno que
usava uma calça idêntica à do professor Betão e, logicamente, como os
adolescentes não perdem a oportunidade de “zoar” com os outros, começaram a
chamá-lo de “Betão”, coisa que esse menino detestava, ao invés de ver como um
elogio, e vinha reclamar para mim que estavam chamando-o de Betão.
Eu, como educadora, pedia para os alunos pararem com o
que hoje chamam de bullying. Situação
muito difícil, pois não podia falar nada de negativo em relação ao sério
professor. Além disso, como já falei antes, eu tenho muita dificuldade de
segurar o riso.
Num certo dia, eu estava escrevendo na lousa e esse
menino, que chamavam de Betão, veio pedir para ir ao banheiro e eu o deixei ir.
Quando ele voltou, sentou-se em sua cadeira e levantou-se rapidamente, muito
revoltado, dizendo: “Professora! Olha o que escreveram no meu caderno!”.
Quando eu olhei para o seu caderno, vi que alguém tinha
escrito BETÃO,
com letras garrafais, ocupando toda a extensão da folha.
Eu sei, teoricamente, que eu jamais deveria ter feito
isso, mas quando olhei para aquilo e olhei para a calça do menino, esticada de
modo idêntico à do Betão, eu não aguentei... Comecei a rir sem parar e o
garoto, sem saber o que fazer, começou a rir junto.
Depois dessa aula, nunca mais o menino veio reclamar do
apelido.
