segunda-feira, 7 de março de 2016

Professor Betão, a figura

PROFESSOR BETÃO, A FIGURA.

            Como já deixei claro na introdução, os nomes dos colegas e alunos seriam preservados. Sendo assim, Betão não é o nome real do professor de Educação Física em questão. No entanto, quem o conheceu saberá exatamente de quem estou falando e espero que vejam essa narrativa como uma homenagem a uma figura excêntrica e lendária de nossa cidade, que contribuiu tanto com a educação.
            Professor Betão era uma figura, como já havia mencionado, muito excêntrica que conheci nos meados dos anos 80, quando ainda era aluna. Como era formado na época do militarismo, ainda guardava muitos resquícios dessa época: seriedade na face, voz de comando, exigência na disciplina e no cumprimento das atividades físicas, além do treino impecável dos times para os jogos regionais. Era muito respeitado e amado pelos alunos, apesar do seu jeitão.
            Na década de 90, voltei a encontrar o professor Betão, agora como colega de trabalho. Ele continuava do mesmo jeito, porém, percebi que as mudanças na educação e na clientela das escolas públicas fazia com que Betão se frustrasse muito com a falta de interesse e respeito dos alunos. Além da incompreensão da sua excentricidade.
            Gostaria de mencionar que Betão, apesar de já ter passado dos 50 anos, sempre manteve seu físico, alto, magro, porém atlético. No entanto, sempre manteve, também, seu modo de se vestir: boné, apito, camisa polo justa e uma calça de helanca, daquelas antigas, marrons com listras laterais, que tem alça no pé e cadarço na cintura.
            Pelo fato de o professor ser magro e alto com pernas longas, e ainda usar essa calça, que ficava bem esticada em seu corpo, devido às alças e ao cadarço, quando ainda não agravava a “estica” da calça usando suspensório, os alunos começaram a dizer que aquele professor usava uma calça “centro-peito”, remetendo ao modelo saint tropez, dos anos 80, cuja cintura batia quase no peito.
            Os alunos ainda observaram que ele era muito parecido com um personagem de filme chamado Crocodilo Dundee e eu pensava: “Meu Deus! Como podem?”.
            E para arrematar este episódio, falo de um aluno que usava uma calça idêntica à do professor Betão e, logicamente, como os adolescentes não perdem a oportunidade de “zoar” com os outros, começaram a chamá-lo de “Betão”, coisa que esse menino detestava, ao invés de ver como um elogio, e vinha reclamar para mim que estavam chamando-o de Betão.
            Eu, como educadora, pedia para os alunos pararem com o que hoje chamam de bullying. Situação muito difícil, pois não podia falar nada de negativo em relação ao sério professor. Além disso, como já falei antes, eu tenho muita dificuldade de segurar o riso.
            Num certo dia, eu estava escrevendo na lousa e esse menino, que chamavam de Betão, veio pedir para ir ao banheiro e eu o deixei ir. Quando ele voltou, sentou-se em sua cadeira e levantou-se rapidamente, muito revoltado, dizendo: “Professora! Olha o que escreveram no meu caderno!”.
            Quando eu olhei para o seu caderno, vi que alguém tinha escrito BETÃO, com letras garrafais, ocupando toda a extensão da folha.
            Eu sei, teoricamente, que eu jamais deveria ter feito isso, mas quando olhei para aquilo e olhei para a calça do menino, esticada de modo idêntico à do Betão, eu não aguentei... Comecei a rir sem parar e o garoto, sem saber o que fazer, começou a rir junto.

            Depois dessa aula, nunca mais o menino veio reclamar do apelido.