domingo, 13 de maio de 2018

O lago dos cisnes



Quem dá aulas de Português e Matemática no estado sabe o quanto nós somos cobrados para que os alunos tenham um bom desempenho no SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo).
Eu tinha uma sala com muitas dificuldades e, por causa do resultado que tiveram na avaliação externa do primeiro bimestre, decidi ter uma conversa com eles, para que se dedicassem mais e pudessem ter um melhor desempenho nas avaliações seguintes.
Mas havia um detalhe, uma menina que estava na sala por inclusão mental e, ocasionalmente, costumava levantar-se da carteira e dançar, como se estivesse num balé, e eu tolerava essas danças, pois, coitada, a condição na qual ela se encontrava não era culpa dela. Era só uma expressão de alegria.
Continuando o assunto, eu estava conversando com a sala sobre o seu desempenho e mostrando as notas que haviam tirado na avaliação externa de maneira bem séria e preocupada. Quando, de repente, a garota levantou e começou a fazer passos de balé, imitando o lago dos cisnes.
Apesar do evento, segui falando seriamente com os alunos e estes continuaram quietos, prestando atenção no que eu estava dizendo. Tolerei a garota dançando durante alguns minutos, até que eu não aguentei mais e dei um grito, mandando-a sentar. Ela sentou e abaixou sua cabeça.
Ao mesmo tempo em que senti pena da menina, eu estava numa situação em que necessitava da atenção total dos alunos e é claro que uma garota dançando ao meu lado os dispersaria muito. Tive que fazer o que fiz.
Eu, particularmente, considero a questão da inclusão como algo muito grave e triste, tanto para os professores, que não recebem orientação para trabalharem com esse tipo de aluno e para o próprio aluno, que não tem culpa da situação em que se encontra.


quarta-feira, 9 de maio de 2018

O SERMÃO DO PROFESSOR E O CELULAR


Quem escolhe ser professor, geralmente faz essa opção porque quer ajudar os alunos a melhorarem de vida por meio do estudo. No entanto, nem todos estão preparados para ouvir certos conselhos.
Paulo era um desses professores, costumava parar sua aula para conversar com os alunos e fazê-los valorizar o estudo. Explicar o que eles teriam de fazer para serem alguém na vida.
Porém, entre os alunos, havia uma garota chamada Roselene, que visivelmente tinha problemas de deficiência intelectual e estava muito empolgada com um celular que acabara de ganhar.
No meio da aula de Matemática, Roselene estava manuseando o seu novo aparelho e digitando algumas coisas, quando Paulo viu o que estava ocorrendo e disse:
- Roselene, você tem que estudar para ser alguém na vida! Veja o seu comportamento, veja a sua vida, é isso que você quer?
Nisso, Roselene, ignorando o professor, digita algumas coisas em seu celular e mostra para o colega de trás. Observando a cena, Paulo desistiu de tentar conversar com a garota.
Ao chegar à sala dos professores, o professor estava revoltado, dizendo que tinha sido ignorado por tentar ajudar uma aluna. Quando perguntei quem era e ele respondeu que era Roselene, eu até fiquei feliz, pois a menina não sabia escrever nada, nem sequer reconhecer números, pelo menos estava fazendo alguma coisa.
Depois do momento de felicidade, pensei com meus botões: “A que ponto eu acabei chegando, ficar feliz por uma aluna de 7º ano estar a caminho de reconhecer letras e números. Meu Deus!”.




quinta-feira, 26 de abril de 2018

A lição do "x" e o gordinho



Juninho era um aluno muito bem-humorado, gordinho e tinha até as bochechas vermelhas de tão fofo que era. Como todo gordinho, Juninho tinha suas gordices e só pensava em comida.
Ao pedir para que os alunos escrevessem uma redação, percebi que eles se confundiam muito com a grafia das palavras. Sendo assim, pedi para que escrevessem uma lista com cinco palavras com cada letra ou letras: x, ch, ss e rr, para que a retomássemos posteriormente.
O gordinho logo perguntou se poderia colocar nomes de comidas e eu respondi que sim.
Quando o garoto trouxe seu caderno para eu olhar e observei sua lista de palavras:
x
rr
ss
ch
x - bacon
Arroz
Assado
churrasco
x- egg
Macarrão
Massas
charuto
x-salada
Churrasco
pássaro
Chapéu
x- tudo
Cachorro
passarinho
...
x- burguer
Barriga
...
...

Eu deixei alguns quadros em branco, pois não me lembro das outras palavras. No entanto, percebi que, pelo menos 50% delas se referiam a alimentos.
Com isso, acabei entendendo por que tantos gordos tinham dificuldades de emagrecer. Pelo menos 50% do tempo (se não 100%) eles pensavam em comida.




segunda-feira, 27 de junho de 2016

Cada nome exótico...

        No início da minha carreira, eu era muito inexperiente e essa falta de experiência me fazia passar por situações constrangedoras. Lembrando que eu tinha muita dificuldade de segurar o riso.
        Eu recebia a lista de nomes e me atrevia a fazer a chamada imediatamente, coisa que eu não faço mais. Hoje eu recebo a lista, leio os nomes, se eu tiver dúvidas, pergunto a alguém sobre a pronúncia do nome e, aí sim, eu faço a chamada.
         Alguns nomes muito exóticos que encontrei pelo caminho: Bruce Waine, Leidedaiana, John Lennon, Elton John, Greiciskely, Santo (que de santo não tinha nada), Mardison (vulgo Mardição, de tão bagunceiro que era). Um muito exótico que era Buci Tildes, eu acho que os pais quiseram fazer uma homenagem à atriz Brooke Shields, não sei. Fora as misturas que gostam de fazer para homenagear avós, como Valdicleison, mistura de Valdete com Cleison, Ermicídio, mistura de Ermínia com Delcídio, entre outros. Além desses, ainda há as variações: Michel, Michael, Maicon, Máicou, Maicow, Mikael, que a gente nunca sabe a pronúncia ao certo. Fazer o quê? Nome não vem com pronúncia.
         Mas um episódio que eu não esqueço foi quando entraram duas alunas novas na sala e eu acabei perguntando da minha mesa quais eram seus nomes, para que eu os anotasse em minha caderneta.
      Uma delas falou o nome e sobrenome direitinho e eu anotei, a outra falava seu primeiro nome, seu nome do meio e quando chegava ao sobrenome, eu não conseguia entender, pois ela o pronunciava muito baixo.
      Sem me tocar do que estava acontecendo, eu pedi que falasse seu nome mais alto e ela continuava fazendo a mesma coisa, falava seu primeiro nome, seu nome do meio e quase sussurrava seu sobrenome. Eu fiz uma cara de quem não entendeu novamente.
      Percebendo que eu iria perguntar mais uma vez, a garotinha da frente me alertou, sussurrando:
         - É “Pinto”, professora...
         Ai, meu Deus. Foi uma das ocasiões mais difíceis de segurar o meu riso.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

"Tá escrito HOME no livro de INGREIS"

“Tá escrito HOME no livro de INGREIS”

Uma das coisas que me levaram a ser professora é o gosto por ensinar e, por meio do ensino, ajudar a abrir as mentes dos alunos e despertá-los para novas possibilidades em suas vidas.
Acredito que muitos dos meus colegas escolheram essa profissão pelo mesmo motivo, por acreditarem no poder do conhecimento para a construção de um mundo melhor. No entanto, embora a maioria dos meus colegas dê o melhor de si em suas aulas, muitas vezes, há uma confusão no entendimento dos alunos.
Um exemplo muito interessante foi quanto uma professora de História explicava com muito entusiasmo sobre a escravidão no Brasil, como os escravos eram trazidos, o que acontecia com eles, enfim uma tremenda aula. De repente, um garotinho diz:
- Minha mãe tem um monte de escravos em casa!
- Como? – perguntou a professora assustada com o comentário – Como sua mãe tem escravos em casa?
- É, minha mãe plantou um monte de “escravos” no jardim. – referindo-se com muito orgulho aos cravos que sua mãe havia plantado no jardim de sua casa.
A professora teve que explicar a diferença entre cravos e escravos ao garotinho. Mas, imaginem o que se passava na cabeça do menino enquanto ela explicava sobre todo o processo da escravidão!
Numa outra aula, agora de Geografia, a professora explicou sobre a Rosa dos Ventos e, como é muito comum, ensinou aos alunos como se desenha a tal rosa.
Ao dar uma prova dessa matéria, a professora não conseguia decifrar a resposta de uma aluna e ao chamá-la para perguntar sobre o que ela havia respondido, a garotinha respondeu como se fosse algo óbvio:
- É a “Rosa do Ventre”, professora!
No meu caso, como professora de Inglês, me deparo com situações “cacofônicas” das palavras em inglês. Por exemplo, quando faço a pronúncia dos verbos irregulares:
Come – came – come, cuja pronúncia é, mais ou menos câm, quêim, câm. Alguns alunos perguntam, maliciosamente: “Quem come quem?”
Give – gave – given, cuja pronúncia do gave lembra gay, e os alunos riem nesse momento.
E o mais nojento de todos: Meet – met – met, cuja pronúncia fica, mais ou menos mit, méti, méti. Nesse momento, já presenciei alunos comentando: “Esse tal de Mit é safado, hein!”
Além desses exemplos, eu tenho um que ocorreu numa escola rural, na qual eu dava aulas de Português e Inglês. Nessa escola, os alunos costumavam escrever da maneira que falavam, por exemplo: muié (mulher), nóis (nós), campiá (procurar) e eu costumava chamar-lhes a atenção para esse fato e pedir-lhes para que escrevessem corretamente.
Numa ocasião, um aluno gritou para mim, com um ar indignado:
- Professora, a senhora chama a atenção da gente quando nóis  escreve errado, mas aqui no livro escreveram errado também!
- O que está escrito errado? – perguntei assustada.
- Aqui ó! escrito HOME, no livro de ingreis! – apontando muito sério – E o certo é HOMEM!
Tive que segurar o riso e explicar ao menino que HOME em inglês é diferente de HOMEM em português.

Como dizem os sábios: ENSINAR É UMA ARTE!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

EU VOU LHES DIZER ONDE OS ALUNOS ENFIAM O MATERIAL

EU VOU LHES DIZER ONDE OS ALUNOS ENFIAM O MATERIAL

          Lembro-me de quando eu era criança e meus pais tinham que comprar os materiais para que eu pudesse frequentar e escola: lápis, cadernos, régua, borracha, canetas etc.
Era uma alegria muito grande para mim, e acredito que também para meus coleguinhas, adquirir materiais novos no começo de cada ano e me lembro do orgulho que tínhamos ao gastar um lápis até que se tornasse um toquinho, gastar uma caneta até o final ou enchermos um caderno de lições e conseguir terminá-lo sem orelhas ou encardidos. Dava uma impressão de que estávamos estudando muito e que o uso dos materiais era consequência de nosso trabalho árduo.
Hoje em dia, no estado de São Paulo – Brasil, são distribuídos kits de materiais escolares, incluindo cadernos universitários de capa dura, caderno de desenho, compasso, lápis de cor, borrachas, apontadores, régua, esquadro, transferidores etc. e, misteriosamente, um mês após receber esse kit, os alunos se encontram sem borrachas, sem lápis ou canetas.
Quer dizer, nem tão misteriosamente, pois já vi vários usos inusitados desses materiais...
Um dia, eu estava observando a sala e um garoto, de aproximadamente 11 anos, havia feito um corte da extremidade até o centro de uma borracha. Fiquei observando o que ele faria com aquilo.
O garoto prendeu o corte da borracha em seu nariz, formando uma espécie de prendedor e ficou olhando para o garoto de trás para ver se esse achava graça do feito. Porém, o garoto de trás (meio lesado) olhava para o “prendedor” sem reação alguma.
Em outra ocasião, a professora de Artes presenciou outro uso dos materiais: enquanto organizava seus cadernos, ouviu um barulho estranho de pedaços de madeira batendo. Quando ela olhou para a sala, viu dois garotos que conseguiram prender lápis em seus calcanhares, por dentro dos tênis, e faziam uma “luta” de espadas com os lápis. Ela não conseguiu acreditar no que via.
Além dos materiais, o governo costumava distribuir livros paradidáticos, que eram para serem lidos com os alunos em sala de aula e eu, como professora de Português, incentivava a leitura desses livros.
No entanto, uma sala de 9º ano apresentava muitas dificuldades para ler e alguns costumavam ler em voz alta, atrapalhando a concentração dos outros alunos que liam em silêncio. Percebendo que isso acontecia, eu pedi para que os alunos lessem os livros apenas “com os olhos”, sem falar alto.
Quando eu olhei para o fundo da sala, vi um garoto colocando a lombada do livro sobre a ponta do nariz, suspendendo-o e olhando para cada lado do livro com um dos olhos, ficando com uma expressão de porco vesgo.
Além desses usos indevidos, ainda presenciamos folhas em branco jogadas no lixo, com apenas um risco, folhas de caderno transformadas em aviõezinhos ou bolinhas de papel. Canetas e lápis espalhados pelo chão da sala após as aulas, réguas quebradas por terem servido como espadas etc.


Eis apenas alguns exemplos de como os materiais são utilizados pelos alunos. Parece-me que, infelizmente, nem os alunos, nem os pais valorizam o que lhes parece dado “gratuitamente”. PARECE GRATUITO, pois quem tem um pouco de conhecimento sabe que esses materiais saem do nosso bolso e a um preço que SÓ O GOVERNO sabe. 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Professor Betão, a figura

PROFESSOR BETÃO, A FIGURA.

            Como já deixei claro na introdução, os nomes dos colegas e alunos seriam preservados. Sendo assim, Betão não é o nome real do professor de Educação Física em questão. No entanto, quem o conheceu saberá exatamente de quem estou falando e espero que vejam essa narrativa como uma homenagem a uma figura excêntrica e lendária de nossa cidade, que contribuiu tanto com a educação.
            Professor Betão era uma figura, como já havia mencionado, muito excêntrica que conheci nos meados dos anos 80, quando ainda era aluna. Como era formado na época do militarismo, ainda guardava muitos resquícios dessa época: seriedade na face, voz de comando, exigência na disciplina e no cumprimento das atividades físicas, além do treino impecável dos times para os jogos regionais. Era muito respeitado e amado pelos alunos, apesar do seu jeitão.
            Na década de 90, voltei a encontrar o professor Betão, agora como colega de trabalho. Ele continuava do mesmo jeito, porém, percebi que as mudanças na educação e na clientela das escolas públicas fazia com que Betão se frustrasse muito com a falta de interesse e respeito dos alunos. Além da incompreensão da sua excentricidade.
            Gostaria de mencionar que Betão, apesar de já ter passado dos 50 anos, sempre manteve seu físico, alto, magro, porém atlético. No entanto, sempre manteve, também, seu modo de se vestir: boné, apito, camisa polo justa e uma calça de helanca, daquelas antigas, marrons com listras laterais, que tem alça no pé e cadarço na cintura.
            Pelo fato de o professor ser magro e alto com pernas longas, e ainda usar essa calça, que ficava bem esticada em seu corpo, devido às alças e ao cadarço, quando ainda não agravava a “estica” da calça usando suspensório, os alunos começaram a dizer que aquele professor usava uma calça “centro-peito”, remetendo ao modelo saint tropez, dos anos 80, cuja cintura batia quase no peito.
            Os alunos ainda observaram que ele era muito parecido com um personagem de filme chamado Crocodilo Dundee e eu pensava: “Meu Deus! Como podem?”.
            E para arrematar este episódio, falo de um aluno que usava uma calça idêntica à do professor Betão e, logicamente, como os adolescentes não perdem a oportunidade de “zoar” com os outros, começaram a chamá-lo de “Betão”, coisa que esse menino detestava, ao invés de ver como um elogio, e vinha reclamar para mim que estavam chamando-o de Betão.
            Eu, como educadora, pedia para os alunos pararem com o que hoje chamam de bullying. Situação muito difícil, pois não podia falar nada de negativo em relação ao sério professor. Além disso, como já falei antes, eu tenho muita dificuldade de segurar o riso.
            Num certo dia, eu estava escrevendo na lousa e esse menino, que chamavam de Betão, veio pedir para ir ao banheiro e eu o deixei ir. Quando ele voltou, sentou-se em sua cadeira e levantou-se rapidamente, muito revoltado, dizendo: “Professora! Olha o que escreveram no meu caderno!”.
            Quando eu olhei para o seu caderno, vi que alguém tinha escrito BETÃO, com letras garrafais, ocupando toda a extensão da folha.
            Eu sei, teoricamente, que eu jamais deveria ter feito isso, mas quando olhei para aquilo e olhei para a calça do menino, esticada de modo idêntico à do Betão, eu não aguentei... Comecei a rir sem parar e o garoto, sem saber o que fazer, começou a rir junto.

            Depois dessa aula, nunca mais o menino veio reclamar do apelido.