quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A arte de apelidar

A ARTE DE APELIDAR
            No decorrer de minha carreira, eu fui observando o quanto os alunos são mestres na arte de apelidar as pessoas, seja um colega ou um professor.
            Lembro-me de uma sala em que praticamente todos os meninos tinham apelidos e os mais marcantes, para mim, eram Indião, Batchan, Gazela e Esqueleto. Vamos às descrições:
Indião era um garoto oriental, de pele muito morena, boca reta com lábios grossos e um cabelo negro, grosso e liso que era cortado em franja no meio da testa. Batchan, para quem não sabe, significa vovó em japonês. Esse garoto também era oriental, muito magro e quando ele ria, formavam-se pés-de-galinha ao redor de seus olhos, deixando-o com cara de senhora idosa. Gazela, da mesma sala, não era oriental, era um garoto magro, loiro, miúdo, de dedos finos e voz irritantemente fina, o que o deixava com um ar afeminado, daí o apelido. E acredito que Esqueleto dispense explicações, mas, em todo caso, era um garoto cuja grossura do corpo não ultrapassava o de sua cabeça, praticamente.
Um dia, eu estava terminando a minha aula nessa sala e eu ouvi os alunos falando:
- De quem vai ser a próxima aula?
- Xi! Vai ser da Coruja!
Olhei para o horário pregado na sala e vi que a professora que vinha a seguir tinha características que eu nunca havia associado até então: era gordinha, baixinha e tinha os olhos redondos e arregalados, além de que sua voz lembrava o piado de uma coruja. Perfeito!
Lógico que eu, como professora, também não escapo. Passei por várias escolas e tive vários apelidos: Pikachu, Terremoto, Sindel... Este último foi um dos mais criativos dos quais eu fiquei sabendo, pois essa personagem pertence ao jogo Mortal Kombat e suas características são: matar os oponentes com gritos e chicoteá-los com os cabelos. Genial!
Porém, um dos últimos episódios que vivenciei envolvendo apelidos foi numa época em que fazia muito calor em que acabei comprando três vestidos do mesmo modelo, estilo midi, que tinham uma costura logo abaixo do peito de onde partia a saia e, não sei por que, os alunos viram alguma semelhança entre os meus vestidos e a da personagem Chiquinha do seriado Chaves.
Quando comecei a ir com os vestidos, eu sempre ouvia algum aluno em cada sala falando: “Se tem a Chiquinha, tem que ter o Chaves”. Mas eu nem havia me tocado, no início. Até que essa fala começou a ficar frequente demais e a partir daí, percebi a causa.  
No dia seguinte à percepção, lá veio uma menina com a frase: “Se tem a Chiquinha, tem que ter o Chaves”.
Calmamente respondi, olhando para o nada:
-Tem gente que parece filha do Seu Madruga com a Bruxa do 71 e não se toca.
O ar da sala parou... Os alunos ficaram calados, mas eu parecia ouvir suas vozes dizendo: “Xiii, ela sabe...” ou “A tonta da menina se ferrou”.

E nunca mais eu ouvi a bendita frase...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

E tudo começou com o "enxulão",,,

 E TUDO COMEÇOU COM O “ENXULÃO”...

Quando eu comecei a fazer a faculdade de Letras, iniciei também um curso para ser cabeleireira, pensando na possibilidade de montar um salão para trabalhar de dia e dar aulas à noite.
Eu estava gostando muito dos dois cursos, no entanto, eu percebi que uma característica minha atrapalharia muito, se eu optasse por ser cabeleireira: o fato de não conseguir segurar o choro ou o riso. Pois, todos sabem que quando uma cliente vai ao cabeleireiro, quer sair com a autoestima elevada, sentindo-se bonita, e o mesmo vale para os homens.
Durante esse curso, eu me deparei com várias situações, como cabeças tortas, com verrugas ou piolhentas. Além de muitas pessoas que insistem em copiar cortes de famosos e, muitas vezes, não lhes caem bem.
Terminei o curso de cabeleireira e acabei não montando um salão, apenas atendia alguns conhecidos da vizinhança e cortava os cabelos dos meus familiares, porque com eles eu poderia rir à vontade, caso alguém ficasse ridículo.
 Um dia, apareceram aulas livres para eu ministrar e tive que parar com as atividades por falta de tempo. Lembro-me como se fosse ontem, era uma classe de crianças do 6º ano, antiga 5ª série, com meninos muito levados para os quais eu daria aulas de Inglês.
Tudo corria dentro da normalidade, quando numa dessas aulas, eu estava escrevendo na lousa e uma garotinha gritou choramingando:
- Professora, estão me chamando de enxulão!
O termo enxu, aqui no interior de São Paulo, é usado para designar uma colmeia de abelhas ou um enxame de abelhas.
Quando olhei para trás, eu me deparei com a enxulão. Era uma garotinha gordinha, cujo cabelo formava cachos volumosos que se amontoavam no topo de sua cabeça, na hora pensei: “Não é que parece um enxu mesmo?”. Segurei o riso que borbulhava na minha barriga e dei um sermão nos meninos sobre respeito ao próximo.

Ao sair da sala, fiquei refletindo o quanto os alunos são observadores e notam “aquele” detalhe para dar apelidos às pessoas e este vai ser o assunto da próxima postagem.


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Introdução

     Muitos consideram a profissão de professor como massacrante, ingrata e mal paga, demonstrando até um olhar de pena quando dizemos que somos professores. Logicamente, essas pessoas não estão completamente erradas, porém, acredito que se nós vestirmos essa carapuça de vítimas e coitados, não seremos capazes de enxergar a grandeza, a beleza e o grande valor que temos. Aliás, quem tem que reconhecer o nosso valor em primeiro lugar somos NÓS MESMOS! (Modéstia às favas!)
     De acordo com a minha experiência, a partir do momento em que eu passei a reconhecer o meu valor e não me deixar abater pelos comentários alheios, não aceitar menosprezo e não fazer coro com quem desvaloriza a profissão, parece que meu olhar se abriu para as coisas positivas.
     Durante minha carreira de professora, participei de vários episódios engraçados e também ouvi várias narrações muito divertidas dos meus colegas de trabalho.
     O interessante é que quando eu conto essas histórias para pessoas que não trabalham na educação, elas não conseguem acreditar no que estou falando. Talvez, porque elas tenham vivido numa época em que não existia a tal da Progressão Continuada que, aqui no estado de São Paulo, se tornou aprovação automática, como também não existia o Estatuto da Criança e do Adolescente, muito menos as políticas de inclusão que existem no papel, porém, são quase impossíveis de se pôr em prática.
     Outro fato assustador é que quando eu estava fazendo meu mestrado, muitos doutores e pós doutores que estavam fora da escola pública há muito tempo, ou nunca tinham dado aula nesse setor, não conseguiam entender o que se passava em uma sala de aula do século XXI e o agravante é que vários desses acadêmicos tinham ou têm uma influência muito maior que a nossa nas políticas de educação.
     Por meio deste blog, contarei algumas histórias que testemunhei e tentarei mostrar nossa realidade com leveza.
     MEUS COLEGAS DE TRABALHO E ALUNOS PODEM FICAR TRANQUILOS, PORQUE SUAS IDENTIDADES FORAM PRESERVADAS.